Entre o pressionar do rec e stop

Há alguns dias, foi lançada pelo selo português Green Field Recordings uma compilação reunindo gravações de campo de uma dezena de realizadores brasileiros, na qual está incluído um registro que fiz durante a investigação do doutorado. O tempo entre uma ação e outra teve curadoria de Rui Chaves e Paulo Dantas, que se orientaram pela seguinte pergunta: “o que acontece entre o pressionar do rec e stop?”

O resultado, um amálgama de 55’46” das dez faixas originais encadeadas, é apresentado por Chaves e Dantas a partir de diversas questões que muito se aproximam daquelas que estou investigando. Na lista de artistas, há várias pessoas com quem tenho conversado ou cujo trabalho venho acompanhando nos últimos anos, e que têm me ajudado a compreender as problemáticas às quais me dedico agora. Assim, creio que esta participação acaba por ser um flagrante de um dos modos que encontrei não só de me colocar no “campo” da gravação de campo enquanto tal, como, antes, na própria pesquisa de campo.

A compilação completa está aqui. Abaixo, segue a a faixa “Kenton Station” completa, e um texto descritivo.

 

Kenton Station

Data de gravação: 20 de setembro de 2016, às 15:34

Lugar: Kenton Station, Londres (Zona 4)

Equipamento: Microfone Rode iXY Lightning e iPhone SE

Sample rate: 96.0 kHz

Canais: estéreo

Voltava da Universidade de Westminster, cuja Escola de Mídia, Artes e Design se encontra em um subúrbio no noroeste de Londres. Tomaram-me de assalto os sons na chegada à estação de Kenton, então me muni de microfone na volta. Conectei o RØDE i-XY ao iPhone SE e tomei a gravação enquanto percorria a estrutura temporária que se erguia sobre os trilhos, ligando uma plataforma a outra.

Ouve-se pelo menos quatro tipos de trens.

O de ritmo mais lento é o trem da linha Bakerloo do Underground que, nesse trecho, é de superfície. Lento, porque está desacelerando para chegar à estação ou acelerando para partir. Mas também porque a Bakerloo é servida por trens mais antigos e mais vagarosos que os de outras linhas – como a Metropolitan, que passa ali bem perto, na estação vizinha de Northwick Park.

O segundo trem mais rápido é o Overground. Ele passa uma primeira vez, e eu podia tê-lo tomado, mas não estou com muita pressa. Permaneço no meu passo lento, para me fazer o mais silenciosa possível. Comecei a gravar antes de cruzar a passarela que dava acesso ao outro lado da plataforma. Só deixei de gravar quando peguei o segundo Overground que seguia para Euston (quando ele fechou suas portas atrás de mim, a faixa foi concluída, não sem algum ruído do meu próprio manuseio do equipamento, mais preocupada que estava em “mind the gap”, em prestar atenção ao espaço entre vagão e plataforma). No serviço do Overground, os trens são mais modernos e padronizados, de porte maior que os da Bakerloo.

Mapa do London Overground (2012)

Em termos de rapidez, em seguida vêm os trens da London Midlands, que opera rotas para fora de Londres. Por isto, estes quase não se detêm nas estações da capital. Os trilhos por onde eles passam correm em paralelo às vias compartilhadas pelo Underground e pelo Overground, mas ficam fora do acesso do público, atrás da parede de uma das plataformas da estação, construída às margens do punhado de caminhos que servem a metrópole. Kenton Station é uma pequena cápsula a céu aberto num denso feixe de vias férreas. A parede se ergue apenas em parte do corredor da estação, então é possível ver os trens mais rápidos passando, seja do alto da passarela suspensa ou pela cerca entre as escadas e a parte abrigada onde passageiros (os commuters) aguardam.

Também nessa área externa à estação passam os trens da Virgin, cujas velocidades podem alcançar 200 km/h. São os mais velozes. É a passagem desse conjunto de trens, pontuada pelo número de vagões dos quais cada um é composto, que emerge como aquilo que há de mais ritmado na gravação. Mas há também os passos dos commuters, o pio dos passarinhos, o aviso sonoro das portas, as engrenagens dos motores, o tão característico girar metálico das rodas. E há também a eletricidade que ora estala, ora chia nos trilhos, pré-soando o trem de forma quase mágica. O resto é arritmia. Até mesmo o surgimento do ronco de uma moto nas ruas adjacentes. Era uma tarde agradável, fim de verão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s